Será assim...

A BIO LÓGICA DO SINTOMA

Os micróbios, nossos grandes aliados 

 

Alain JÉZÉQUEL

1. Os micróbios, as bactérias, os vírus, os fungos, considerados agentes patogénicos”, são apontados como os grandes inimigos da saúde, os responsáveis pelas doenças “contagiosas” (herpes, hepatite, angina, úlceras) pelas infecções (por estafilococos, estreptococos, cândidas, etc) e pelas epidemias (gripe, tuberculose, meningite, etc).

No entanto, ultimamente, este dogma microbiano tem vindo a ser radicalmente contestado por investigadores da área que, não só propõem um novo olhar sobre as doenças infecciosas como, também, sobre o sentido da patologia.   

De forma a ilustrarmos, de maneira simples, o princípio desta nova abordagem, imaginemos a seguinte situação: 

           

2. Na estrada ocorre um acidente grave que envolve vários carros. Dado o alarme, chegam ao local os agentes, os bombeiros, as ambulâncias (médicos e os enfermeiros) para prestarem os primeiros socorros, cada corpo de intervenção tendo, naturalmente, as suas competências respectivas (gerir a circulação, evacuar e tratar os feridos, limpar a estrada etc.). Em geral, os jornalistas e os repórteres chegam ao local depois do acidente e depois das forças de polícia e de socorro.

Imaginemos agora uma situação completamente absurda: os jornalistas, ignorando as razões possíveis do acidente - deslize, excesso de velocidade, álcool, descuido, discussão, etc -, deparando sempre que chegam ao local dos acidentes com as várias forças de socorros, poderiam ser levados à conclusão seguinte: os polícias, os bombeiros, os médicos e os enfermeiros são os causadores dos acidentes de estrada!

Esta leitura aberrante decorreria da relação causa-efeito entre as vítimas e os outros actores: onde há agentes da circulação e de saúde ocorre um acidente, eis a conclusão dos repórteres!! Curiosamente, do ponto de vista estatístico teriam praticamente sempre razão! Ainda na lógica deste raciocínio, a medida natural e coerente a tomar poderia ser: impedir a actividade dos bombeiros, dos médicos e dos polícias de forma a acabar com os acidentes, já que os agentes de socorro são os naturais responsáveis!

 

3. Voltemos agora ao nosso ponto inicial: os micróbios e as doenças. Imaginemos este mesmo erro de interpretação aplicado ao que designamos de doenças (infecciosas ou não). É justamente esta perspectiva que certos investigadores têm defendido: o que identificamos como as causas da doença (infecção, inflamação, presença microbiana) são apenas manifestações de intervenção, de “salvação pós acidente”!

A inflamação, que se caracteriza por uma dilatação dos vasos sanguíneos, aumenta o acesso dos agentes curativos: plaquetas, leucócitos, glicose, aminoácidos, etc (as forças de socorro) indispensáveis no tratamento da zona atingida; as bactérias têm um papel activo na limpeza orgânica, na evacuação das células inúteis e os micróbios trazem materiais para a reconstrução dos tecidos feridos.

Esta posição, de difícil aceitação num mundo ainda obcecado pela caça aos sintomas e aos micróbios, traz uma leitura extremamente interessante na re-interpretação bio-lógica dos sintomas.

Assim, a síndrome patológica que segue a cronologia real da metáfora rodoviária não começa com a fase de socorro (inflamação ou a infecção) mas dispara antes, com uma perturbação emotiva, um stress inesperado que pode tomar muitas formas: choque brutal, forte contrariedade, desilusão amorosa, ruptura, separação, acontecimento injusto, revolta, susto, decepção, incapacidade e impotência numa situação precisa, insulta, agressão, medo, etc.

Os processos inflamatórios e infecciosos aparecem geralmente quando o choque inicial está a ser resolvido, ou seja, depois da paragem definitiva do carro despistado; naturalmente, nenhuma intervenção de socorro é realizável antes. O movimento do carro que desliza e choca com outro carro representa a fase de actividade conflitual da doença e, como podemos imaginar, a intensidade e o tempo de duração do choque / deslize determinam a gravidade dos danos e das reacções orgânicas.

Não se percebe a coerência do mecanismo em jogo sem percebermos a função capital do cérebro em todas as fases do processo “patológico”: desde a gestão do choque emotivo até à escolha dos micróbios, passando pelos fenómenos inflamatórios de recuperação celulares, todo este processo está dependente das opções cerebrais, processo que o caso seguinte permite ilustrar:

 

4. Um senhor sente-se incomodado no seu espaço pelas atitudes agressivas do vizinho; tiveram várias discussões violentas (fase conflitual de stress gerida pelo cérebro que resultou em ulcerações dos brônquios). Quando o vizinho muda de casa (resolução que implica uma nova estratégia cerebral), este homem sente um imenso alívio: “a luta acabou”. Poucas semanas depois sente-se febril e cansado. É-lhe diagnosticada uma bronquite com infecção bacteriana (fase de recuperação com acção microbiana coordenada pelo cérebro). Apresenta uma tosse com catarro durante vários meses, antes de voltar ao seu estado normal.

BRAGA, 17-05-08 

 

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© Alain Jezequel 2009